ABNA Brasil: Na aldeia global contemporânea, marcada pela velocidade vertiginosa das transformações e pelo volume de informações muito superior à nossa capacidade de assimilação, a arte da concentração e da unidade de esforços tornou-se mais vital do que nunca. Muitos trilham caminhos nos quais, apesar de empenho constante, não alcançam os resultados desejados. Como se uma força invisível conduzisse repetidamente seus planos ao fracasso.
O Amir al-Mu’minin Ali (a.s.), esse oceano de sabedoria e conhecimento, séculos atrás revelou a essência desse fenômeno com palavras profundas:
«مَنْ أَوْمَأَ إِلَی مُتَفَاوِتِ خَذَلَتْهُ الْحِیَلُ»[1]
“Quem se volta para assuntos diversos e dispersos, seus planos o abandonam.”
Essa frase concisa não constitui apenas uma advertência ética, mas um princípio fundamental na gestão do tempo, da energia, do talento e até mesmo da vontade.
1. Dispersão de objetivos: ampla extensão, pouca profundidade
A primeira e mais relevante causa do “abandono dos planos” (khidhlān al-hiyal) é a dispersão dos objetivos. O ser humano, com recursos limitados de tempo, energia e capacidade mental, não pode alcançar profundidade e domínio simultaneamente em múltiplas frentes desconexas. A tentativa de fazer tudo resulta, em última análise, em não realizar nada com excelência.
«كُلًّا نُّمِدُّ هَٰؤُلَاءِ وَهَٰؤُلَاءِ مِنْ عَطَاءِ رَبِّكَ وَمَا كَانَ عَطَاءُ رَبِّكَ مَحْظُورًا»[2]
“Concedemos a todos — a estes e àqueles — das dádivas de teu Senhor; e as dádivas de teu Senhor não são restritas.”
O versículo indica que Allah concede resultados conforme o esforço empreendido. Contudo, um esforço disperso jamais atinge a perfeição. A qualidade da conquista depende da qualidade e da concentração do empenho.
2. A perda da profundidade diante da amplitude
A dispersão inevitavelmente conduz à superficialidade. Quando a mente salta entre múltiplos temas, não dispõe do tempo necessário para análise profunda e compreensão abrangente. Planos nascidos da superficialidade são frágeis, incompletos e desprovidos de força executiva.
«قُلْ هَلْ نُنَبِّئُكُم بِالْأَخْسَرِينَ أَعْمَالًا * الَّذِينَ ضَلَّ سَعْيُهُمْ فِي الْحَيَاةِ الدُّنْيَا وَهُمْ يَحْسَبُونَ أَنَّهُمْ يُحْسِنُونَ صُنْعًا»[4]
“Dize: Quereis que vos informe quem são os mais perdedores em suas obras? Aqueles cujo esforço se perdeu na vida terrena, enquanto julgavam estar fazendo o bem.”
O versículo evidencia que esforços abundantes, mas desordenados e sem direção clara, podem resultar em perda total.
3. “Khadhilat-hu al-hiyal”: quando os planos abandonam o homem
A expressão é de extraordinária precisão: os planos, no momento da execução, perdem eficácia e deixam o indivíduo sem apoio. Isso ocorre por diversas razões:
- Incompletude dos programas devido à divisão excessiva do tempo.
- Insuficiência de energia para execução consistente.
- Conflito e interferência entre projetos distintos.
- Desânimo e confusão gerados pela multiplicidade de tarefas.
4. A solução: unidade de objetivos, caminho da realização
Para superar a armadilha da dispersão, a solução é clara: concentrar-se em um ou em poucos objetivos fundamentais. Essa abordagem permite:
- Centralizar recursos.
- Aprofundar estratégias.
- Estabelecer prioridades corretas.
- Preservar a motivação mediante progresso visível.
Esse princípio aplica-se à vida pessoal, à gestão empresarial, às políticas públicas e à educação dos filhos. Onde há foco, os resultados são mais sólidos e duradouros.
Assim, a palavra luminosa do Amir al-Mu’minin Ali (a.s.) constitui um eixo central para o êxito e para a prevenção do fracasso. O Alcorão Sagrado confirma que esforços dispersos, ainda que numerosos, conduzem ao prejuízo.
O verdadeiro sucesso — seja no campo individual, científico, profissional ou social — depende da clareza dos objetivos, da correta priorização e da concentração constante e integral sobre aquilo que é essencial. Trata-se de um convite à lucidez, à disciplina e à unidade na ação, para que o ser humano transforme seus planos em aliados firmes rumo à elevação e à realização.
Notas
[1]. Nahj al-Balagha, vol. 4, p. 287.
[2]. Alcorão, Surah al-Isra’, 17:20.
[3]. Alcorão, Surah Qaf, 50:44.
[4]. Alcorão, Surah al-Kahf, 18:103-104.
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